terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O país e as faquinhas de barrar


Uma certa marca de manteiga oferece, em cada embalagem, uma faquinha. As faquinhas têm cabos coloridos, verdes, azuis, etc. Permitem fazer conjuntos de uma só cor ou de cores diferentes. Podem usar-se para barrar pão fresco, tostas, bolachas com manteiga, paté, queijo, doces vários.. Não ficam nada mal numa mesa do dia-a-dia ou de visitas mais chegadas.

E, melhor do que tudo, não tendo código de barras, podem, com discrição, separar-se da embalagem de manteiga, bastando rasgar-se um auto-colante que as segura, e guardarem-se algures, no bolso ou na carteira… Ficam a preço zero, não custam nada!

A avaliar pela quantidade de embalagens de manteiga a que falta a faquinha, no supermercado onde vou, deduzo que este seja o raciocínio de alguns que por lá se passeiam.

Uma coisa sem importância absolutamente nenhuma, dirão os leitores. Talvez... Mas, não deixo de pensar que pode ser uma coisa importante, uma coisa que (mesmo que apenas e só no domínio do simbólico) explique porque é que, como país, toleramos, nas palavras de Salgueiro Maia, “o estado a que chegámos” na política, na economia, na saúde, na educação… porque é que toleramos as imposturas com que nos deparamos todos os dias, porque é que toleramos os múltiplos discursos falaciosos, porque é que toleramos o óbvio retrocesso nos direitos humanos básicos, porque é que toleramos as pessoas que sabemos desonestas, porque é que toleramos a humilhação dissimulada, o permanente controlo, porque é que toleramos quem sorri elegante e manipulativamente... E, sobretudo, porque é que não toleramos de maneira nenhuma quem nos apresenta claramente a verdade, quem nos aponta caminhos que nos desviem dos vários abismos que vemos à nossa frente, ou ao nosso lado...

Num país em que se destacam da embalagem de manteiga faquinhas para barrar ainda teremos capacidade para perceber o que significa destacar da embalagem de manteiga faquinhas para barrar?
Posted by Helena Damião at 12:01 10 comments   Links to this post
Labels: portugal, valores
TG

4 comentários:

  1. Toleramos tanta falsidade, porque não gostamos ou não queremos que nos digam as verdades frontalmente. Continuamos a passar a responsabilidade e tudo de menos bom que acontece aos outros.Os valores e a ética começa a ser desvalorizado nos ensinamentos dentro das proprias familias. O respeito pelo bem alheio é posto à margem, tirando primazia ao que sou, e valorizando ao que possuo. HC

    ResponderEliminar
  2. As faquinhas da manteiga.

    Considero que destacar as faquinhas da manteiga (um objecto de valor insignificante, mas que revela atitude) e apropriar-se delas, revela falta de respeito pelos bens alheios. " O seu, é seu dono" O(s) individuo(s) que toma essa atitude, revela falta de ética.

    A Verdade
    Por auto-defesa ou por receio, o ser humano nem sempre reage bem a essa realidade.
    A verdade, por vezes, magoa, é dura e cruel. Daí toda essa resistência. Mesmo magoando, eu defendo a verdade. Verdade, ainda que magoe, é a verdade!!!

    IDM

    ResponderEliminar
  3. As Faquinhas da Manteiga,

    Este texto aborda a situação actual que se vive no país. Nós (os eus) assistimos aos discursos. Aceitamos os planos, as medidas impostas "as ideias sem ideias"descrédulos, mas sem atitude. Será por egoisimo, por passividade, por falta de vontade ou porque achamos que essa atitude é para ser tomada pelo "outro"

    IDM

    ResponderEliminar